Jacqueline Belotti

Viagens Imóveis, intervenção na marquise da Funarte, Brasília, Brasil, 2015.

Espelhos em metacrilato e estrutura metálica.
Projeto contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015. Brasília - Marquise

“Viagens Imóveis” é uma intervenção na paisagem de Brasília com espelhos redondos, convexos e planos em variados diâmetros, sobrepostos à marquise do prédio da Funarte. A obra cria uma sucessão de pontos de vista ritmados por elementos da paisagem e da arquitetura para construir trajetórias para o olhar. Pura passagem, puro devir, pequeno contato entre mundos, pura miragem de quem contempla da terra firme. 

Viagens Imóveis, intervenção na marquise da Funarte, Brasília, Brasil, 2015.

Espelhos em metacrilato e estrutura metálica.

Imagem ilustrativa

Viagens Imóveis - Instalação. Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015. Marquise, Brasília. Imagem ilustrativa

Vídeo registro da instalação "Viagens Imóveis", 2015, duração 1" . 

O percurso visual do nosso olhar sobre os espelhos introduz o tempo, a profundidade, o movimento, como um ‘quase’ cinema na arquitetura, feito de luz e som. 

Vídeo registro da instalação "Viagens Imóveis", 2015, duração 43".

Os espelhos foram organizados em diferentes perspectivas, sendo uma vista um pouco inclinada para a parte baixa, uma vista frontal ao centro e uma vista contrária, inclinada para a terceira parte alta

Sobre a obra:

 

A Visão

 

Quem terá visto algo que em realidade existe, mas não se manifesta? Quem terá visto o que se manifesta no coração, mas não repousa nos lábios?  Quem terá visto aquele que é a realidade do mundo, mas não se encontra no mundo? Quem terá visto na existência e na não existência uma tal não existência?

Jalaluddin Rumi (1202-1273)

Miragens, vertigens, rastros, aparições fugazes, vestígios que nascem ao balanço dos espelhos açoitados pelo vento convocam nossa capacidade de apreensão da realidade que escapa ao sentido da visão. A ideia é conceber um grande aumento nesse campo visual, sugerindo a construção de outras trajetórias para o olhar. Como janelas que se abrem sobre a paisagem, os espelhos convidam o olhar ao deslocamento pela superfície. Aproxime-se, atravesse o panorama que se oferece, desvende a forma fantástica entre as nuvens, as sombras, enfim, admita a ilusão das imaginações, daquilo que se vê ou que se acredita ter visto.

O título Viagens Imóveis refere-se ao modelo de percurso visual requerido do observador para fruição das pinturas de paisagem chinesas. Nesse modelo de representação, a lei Ocidental da perspectiva centrada no ponto de vista único cede lugar a um percurso visual que constrói narrativas e introduz o tempo, a profundidade, o movimento, como um ‘quase’ cinema na arquitetura. Para gerar esse efeito, os espelhos foram organizados em diferentes perspectivas, sendo uma vista um pouco inclinada para a parte baixa, uma vista frontal ao centro e uma vista contrária, inclinada para a terceira parte alta. 

Uma das inspirações para o trabalho foi a própria arquitetura única de Brasília, que propicia a experiência de se sentir em uma amplidão inigualável. Brasília é uma cidade habituada à experiência de enxergar a sua paisagem como miragem refletida em espelhos e espelhos d’’água. Há inúmeros prédios que se mesclam à paisagem, levitam e refletem o céu, a vegetação, os passantes, e o fluxo dos deslocamentos, criando panoramas infinitos em movimento. Deste modo, o trabalho dialoga com esta peculiaridade da cidade, repercute e fragmenta a paisagem que se alterna segundo a direção fluida e efêmera dos ventos.

Os espelhos são dispositivos que atuam como uma espécie de parêntesis entre nada, um momento de suspensão da aceleração contemporânea. Pura passagem, puro devir, pequeno contato entre mundos, pura miragem de quem contempla da terra firme. Conforme Foucault, o espelho é uma utopia, uma vez que é um lugar sem lugar algum. “No espelho, vejo-me ali onde não estou, num espaço irreal, virtual, que está aberto do lado de lá da superfície; estou além, ali onde não estou, sou uma sombra que me dá visibilidade de mim mesmo, que me permite ver-me ali onde sou ausente. Assim é a utopia do espelho. Mas ele é também uma heterotopia, - que está associada ao tempo na sua vertente mais fugaz, transitória, passageira.”

Por fim, incide na configuração dessa obra o diálogo com o original grupo alemão Zero, dos anos 50 – meu objeto de pesquisa e influência mais recente. “Zero é o silêncio. Zero é o começo. Zero é redondo. Zero gira. Zero é a lua. O sol é Zero. Zero é branco. O deserto Zero. O céu acima Zero. A noite.”- excerto de um poema de 1963 do grupo. Longe de ser uma expressão do niilismo ou professar adesão ao Dada, o grupo invoca uma zona de silêncio e pura possibilidade para um novo começo, como na contagem regressiva quando foguetes decolam do zero para a zona incomensurável na qual o velho estado se transforma em novo.

Jacqueline Belotti